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quarta-feira, 15 de julho de 2020

(Im)possibilidade de Penhora sobre Faturamento da Empresa (Por Igor Paiva Amaral)

Está em discussão a (im)possibilidade da penhora sobre faturamento de empresas em processo de execução antes do esgotamento de diligências para procura de bens penhoráveis (BacenJud, RenaJud e InfoJud).

A  1ª Seção do STJ afetou três recursos especiais para decidir, sob o rito dos recursos repetitivos, tal temática.

Defendendo a possibilidade da penhora sobre o faturamento antes de tais diligências, a União alega a violação do artigo 11 da Lei 6.830/1980, sustentando que a penhora do faturamento equivale à penhora sobre dinheiro e não seria autorizada apenas em situações excepcionais.

Ocorre que, até aqui, a jurisprudência dominante assim vem decidindo: 


AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO. PEDIDO DE PENHORA - FATURAMENTO DA EMPRESA - POSSIBILIDADE - FIXAÇÃO DE PERCENTUAL QUE NÃO IMPEÇA A ATIVIDADE.

- Comprovada a inexistência de bens em nome do executado, sendo os encontrados insuficientes para fazer frente à dívida exigida, deve ser mantido o deferimento do pedido de penhora sobre o faturamento da empresa, em percentual que não obste a continuidade da atividade.  (TJMG -  Agravo de Instrumento-Cv  1.0024.13.395459-4/002, Relator(a): Des.(a) Pedro Bernardes , 9ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 14/04/2020, publicação da súmula em 17/04/2020)

(Grifou-se)


EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - EXECUÇÃO FISCAL - PENHORA - RENDIMENTOS DA EMPRESA - POSSIBILIDADE - RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.

Admite-se a constrição sobre a renda da pessoa jurídica, averiguando-se o caso concreto, após o exame do patrimônio do devedor e a constatação de que não há outros bens a serem penhorados e a avaliação da possibilidade da penhora do faturamento da empresa, sem inviabilizar suas atividades.  (TJMG -  Agravo de Instrumento-Cv  1.0702.13.061487-9/001, Relator(a): Des.(a) Belizário de Lacerda , 7ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 19/05/0020, publicação da súmula em 24/05/2020)

(Grifou-se)


Dessa forma, para se evitar maior demora na execução da dívida, antes de se pedir penhora sobre  o faturamento da empresa é necessário se exaurir as diligências para procura de bens para só depois requerer essa forma de execução.

Recentemente tivemos que combater uma decisão interlocutória que teve este mesmo entendimento, qual seja, a impossibilidade da penhora sobre o faturamento antes do esgotamento de tais diligências.

Igor Paiva Amaral é aluno da Faculdade de Direito Unichristus, cursando atualmente o 10 Semestre.

quarta-feira, 31 de março de 2010

As crianças e a criminalidade (por Marcus Vinicius Amorim de Oliveira)

As crianças e a criminalidade


Marcus Vinícius Amorim de Oliveira

30 Mar 2010 - 01h32min - Publicado no Jornal O POVO

O brutal assassinato de uma jovem empresária mais uma vez despertou a sociedade civil para a complexa problemática da responsabilidade penal juvenil. Muitas vozes se levantaram - e isso sempre acontece quando outros delitos estúpidos são cometidos por adolescentes - para defender a redução da maioridade penal. Lembre-se, todavia, que a própria Constituição Federal estabelece que ``são penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial`` (art.228).



Mas outro aspecto desse triste episódio também merece reflexão: o envolvimento de crianças em atos infracionais de adolescentes. Trata-se de algo que vem se tornando mais frequente. Ora, a delinquência juvenil tem como uma de suas características o agrupamento, um fenômeno que a sociologia americana batizou de gangs (gangues). No longa-metragem Cidade de Deus, essa imagem é usada com muita ênfase. Crianças de arma em punho ao lado de outros jovens só um pouco maiores do que elas. E diversamente do tratamento dispensado pela legislação ao adolescente infrator, que está sujeito a aplicação de medidas socioeducativas, a criança que pratica ou participa de delitos recebe apenas medidas de proteção. São elas: encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; orientação, apoio e acompanhamento temporários; matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental; inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente; requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; abrigo em entidade; e, colocação em família substituta (artigo 101, ECA).



Acredito que o Estado precisa, com urgência, envidar mais esforços na oferta de medidas protetivas a crianças enredadas pela criminalidade. É do sucesso dessa política que depende a contenção de tão evidente precocidade na delinquência juvenil. Caso contrário, em pouco tempo ouviremos alguém defendendo também a redução da responsabilidade juvenil para 11, 10, ou quem sabe, até nove anos de idade.



Marcus Vinícius Amorim de Oliveira - Promotor de Justiça em Boa Viagem (CE)

sábado, 20 de março de 2010

Violência até quando? (Publicado no O POVO, em 18/03/2010)


Violência, até quando ?
A cidade encontra-se enlutada pelo brutal e inaceitável assassinato da jovem empresária Marcela Montenegro que, de tão banal e absurdo entristeceu a todos. De chofre, percebemos que o crime poderia ter sido contra qualquer um de nós. O caso não é isolado e já faz parte da rotina de Fortaleza, onde a violência encontra-se pulverizada, ocorrendo em todos os bairros. Os valores se invertem à medida em que a classe média sonha com o carro blindado.
A violência, embora faça parte de qualquer sociedade, pode ser reduzida a patamares de aceitabilidade social ! Sim, deve-se ir às ruas e cobrar dos três poderes do Estado as providências necessárias para a busca da paz social. O direito à paz, inclusive, é direito fundamental de quinta geração, conforme opinião do jurista Prof. Paulo Bonavides.
A sociedade deve parar de fingir que tais crimes são normais, pois, do contrário, estaremos reconhecendo para nós mesmos que todos os dias, ao sair de casa, fazemos parte de um verdadeiro jogo de roleta-russa de marginais. Não devemos ter medo deles e sim eles de nós ! A discussão é complexa, mas a ação é urgente e se dá com demonstração de força social. É necessário mostrar que não perdemos a capacidade de indignação e que esta deve ser canalizada em iniciativas de cobranças frente ao poder público e pelo engajamento em causas sociais, visando prevenir ou evitar o encrudescimento da marginalidade.
Para os marginais, tolerância zero com leis severas, punição exemplar e atuação policial intensiva e com condições. Concomitantemente, investimento maciço em educação. No futuro, os resultados de uma política de tolerância zero para a marginalidade e de uma população com estudo e politizada, decerto, farão de nossas cidades um lugar melhor de se viver. Nada melhor do que pensar em nossos filhos, agir e vaticinar um mundo mais promissor para as gerações vindouras.
Julio Bezerra Leite é advogado e Professor da FGV (julio@leiteararipe.adv.br)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Violência: a sociedade reage...

Hoje recebi um email que está circulando pela cidade e que convoca todos para uma caminhada pela paz no dia 27 de março, às 9 hs na Beira-mar. O e-mail referencia o assassinato da empresária Marcela Montenegro e constitui-se em verdadeira manifestação de indignação da sociedade pelo brutal crime que infelizmente ceifou-lhe a vida. Urge que a sociedade saia de sua zona de conforto e encare o problema da violência de frente. Precisamos reagir ! Julio

segunda-feira, 15 de março de 2010

Recall de automóveis

(Publicado no Diário do Nordeste em 15 de março de 2010)

Dia 15 de março comemora-se o dia mundial do consumidor.


No Brasil, a partir da Lei 8.078/90, o consumidor

passou a dispor de uma série de direitos os quais, infelizmente,

mesmo após quase 20 anos de vigência da legislação

específica, ainda são desconhecidos por relevante parcela da

população. Nesse diapasão, o recall é tema que merece aprofundamento.

O recall relaciona-se à proteção que o Código de Defesa do

Consumidor (CDC) confere à saúde e segurança do consumidor,

daí emergindo aordem legal para que o fornecedor não coloque

nomercado produto ou serviço que apresente alto grau de nocividade

ou periculosidade à saúde ou segurança,bem como, a previsão

legal para que o fornecedor divulgue eventuais falhas.Naprática,

os consumidores,com certa frequência, têm-se deparado com

o recall de veículos que, quiçá devido à forte concorrência do setor,

são inseridos no mercado sem os necessários cuidados exigidos

pela legislação.O recall não afasta a responsabilidade do fornecedor

de produtos,nem do fabricante! Ambos são responsáveis

pelos vícios dos produtos no mercado.A responsabilidade é objetiva,

bastando a prova do nexo causal para caracterização da culpa

do fornecedor. Verificado o vício, o fornecedor tem 30 dias para

saná-lo; e, não o fazendo, cabe ao consumidor escolher uma das

três alternativas: substituição do produto por outro da mesma espécie;

restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,

sem prejuízo de eventuais perdas e danos; ou o abatimento

proporcional do preço.A escolha é do consumidor! O prazo de 30

dias, entretanto, pode ser desprezado, podendo o consumidor escolher uma das

três opções apresentadas, se a substituição das partes

viciadas puder comprometer a qualidade ou características do

produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.

Caso haja resistência do fornecedor em atender à escolha do consumidor,

uma boa sugestão é o envio de notificação cartorial e o posterior

ajuizamento de ação indenizatória, inclusive com a

postulação de danos morais. Nalguns casos, torna-se possível a

efetivação de acordos em órgãos de proteção do consumidor.
(Julio Bezerra Leite é Professor de Direito)

domingo, 14 de março de 2010

Violência, até quando ?

Violência, até quando ?


A cidade encontra-se enlutada pelo brutal e inaceitável assassinato da jovem empresária Marcela Montenegro que, de tão banal e absurdo entristeceu a todos, até mesmo aqueles que não a conheciam. O sentimento de revolta e luto tomou conta de todos; de chofre, percebemos que o crime poderia ter sido contra qualquer um de nós. O caso dela não é isolado e já faz parte da rotina de Fortaleza, onde a violência encontra-se pulverizada, ocorrendo em todos os bairros. Os assaltos nas cercanias da av. Santos Dumont, à altura da Cidade 2000, por exemplo, são diários, sempre à mão armada e através de quadrilhas. É notório, mas ninguém faz nada…

O cidadão de bem, de seu turno, vende a casa e vai morar em apartamento ou condomínio de casas e a classe média já possui um novo sonho: o carro blindado…Os valores estão invertidos ! Não devemo-nos trancar, mas sim, devemos trancar os marginais que diuturnamente geram pânico em nossa cidade !

A violência, embora faça parte de qualquer sociedade, pode ser reduzida a patamares de aceitabilidade social ! O caminho é longo mas o início depende principalmente do engajamento da sociedade pela causa. Sim, deve-se ir às ruas, protestar e cobrar dos três poderes do Estado as providências necessárias para a busca da paz social. O direito à paz, inclusive, é direito fundamental de quinta geração, conforme opinião do jurista Paulo Bonavides.

A sociedade deve parar de fingir que tais crimes são normais, pois, do contrário, estaremos reconhecendo para nós mesmos que todos os dias, ao sair de casa, fazemos parte de um verdadeiro jogo de roleta-russa de marginais. Não devemos ter medo deles e sim eles de nós ! A discussão é complexa, mas a ação é urgente! E a ação se dá com demonstração de força protagonizada pelos mais diversos setores sociais. É a demonstração de que não perdemos a capacidade de indignação e que devemos resistir e não aceitar os crimes como algo normal. A indignação deve ser canalizada em iniciativas de cobranças frente ao poder público e pelo engajamento em causas sociais, visando prevenir ou evitar o encrudescimento da marginalidade.

Em resumo, para os marginais tolerância zero, mas zero mesmo, com leis severas, punição exemplar e atuação policial intensiva e com condições (o policial também tem família!). Doutro viés, para a população em geral, investimento maciço em educação, em qualificação. No futuro, daqui a vinte ou trinta anos, os resultados de uma política de tolerância zero para a marginalidade e de uma população qualificada, com estudo e politizada, decerto, farão de nossas cidades um lugar melhor de se viver. Muitos não verão as mudanças, mas nada melhor do que pensar em nossos filhos e vaticinar um mundo mais promissor para as gerações vindouras.

Julio Bezerra Leite é advogado e Professor da FGV (julio@leiteararipe.adv.br)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O Direito do Idoso e o Mútuo Bancário: aplicação do Código de Defesa do Consumidor e do Estatuto do Idoso


O Direito do Idoso e o Mútuo Bancário: aplicação do Código de Defesa do Consumidor e do Estatuto do Idoso

O título acima refere-se à minha dissertação de Mestrado e pode ser encontrado no link abaixo, direcionado para a Biblioteca da UNIFOR.

Há interessante análise do tema Dignidade, antes de se adentrar no mérito do trabalho. Em suma, analisei as mudanças político-jurídicas pós 1945.


sábado, 23 de janeiro de 2010

Comentário do PPP com o Advogado Julio de Assis Bezerra Leite OAB/CE 12.972, a pedido do SESCON/RJ.

Em resposta à consulta a nós formulada acerca da necessidade de criação do PPP - Perfil Profissiográfico Previdenciário, tecemos os seguintes comentários:
1) A questão é de fácil deslinde bastando apenas uma análise comparativa entre a Lei 8.013 e as Instruções Normativas nº 78 e 84 expedidas pelo INSS, bem como um exercício lógico-jurídico.
2) O Perfil Profissiográfico Previdenciário, estabelecido pela Instrução Normativa nº 78, era, até o advento da IN nº 84, o documento histórico-laboral, individual, do trabalhador que presta serviço à empresa. O documento era destinado a prestar informações ao INSS relativas à efetiva exposição a agentes nocivos. Dentre outras informações, o PPP registrava dados administrativos, atividades desenvolvidas, registros ambientais com base no (Laudo Técnico das Condições do Ambiente de Trabalho (LTCAT) e resultados de monitorização biológica com base no Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional (PCMSO) (NR-7) e PPRA (NR-9).
3) No campo prático, o documento enfocava a questão da prevenção da saúde e bem-estar do trabalhador, pois consistia em tornar públicas informações sobre as ações de saúde e segurança do trabalho. Para o INSS, era o documento utilizado para comprovação do exercício de atividade com efetiva exposição a agentes nocivos de qualquer espécie, prejudiciais à saúde ou integridade física, para efeitos de aposentadoria especial, requerimento de benefício acidentário ou para orientar programa de reabilitação profissional.
4) Toda essa definição foi alterada com o advento da Instrução Normativa nº 84, que estendeu o âmbito de atuação do Perfil, acrescentando informações outras em seu bojo.
5) Ressalte-se que o PPP foi idealizado para aumentar as informações já contidas em outros documentos, de modo a incorporar os dados complementares indicativos da evolução das condições de saúde dos trabalhadores, decorrentes de avaliações periódicas determinadas pelo Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE). Meta esta atingida com a publicação da Instrução 84.
6) Ao entrar em vigor, o PPP faz com que os modelos SB-40, DISES BE 5235, DSS 8030, DIRBEN 8030 percam a validade. A Instrução nº 84 estabeleceu como início de sua validade o dia 20/06/2003, mas, devido a questionamentos de várias facções da sociedade, a Instrução nº 90 alterou esta data para 01/11/2003.
7) Estatui a Lei 8.013, em seu art. 58, § 4º que: “ A empresa deverá elaborar e manter atualizado perfil profissiográfico abrangendo as atividades desenvolvidas pelo trabalhador e fornecer a este, quando da rescisão do contrato de trabalho, cópia autêntica deste documento.”
7) Assim, a referida Lei não excetua nenhum funcionário, dando a entender que todos os funcionários devem ter um perfil, mesmo porque tal perfil deve conter informações sobre as atividades desenvolvidas pelo trabalhador, e não somente sobre a presença de agentes nocivos em seu trabalho. Mesmo em uma interpretação estritamente literal, concluir-se-ia que a referida lei deixou em aberto tal ponto, sendo este agora suprido pela determinação da Instrução Normativa nº 84. De nenhuma forma, na interpretação da Lei, se chegaria ao entendimento de que o perfil só é necessário para determinados tipos de funcionários.
8) Assim sendo, não há que se falar que a Instrução Normativa do INSS, norma hierarquicamente inferior, está em desconformidade com a Lei 8.013, pois trata de assunto que não foi explicitamente definido pela Lei, ficando à cargo da próprio Instrução desenvolver, como contido no §1º do art. 58, que afirma que “a comprovação da efetiva exposição do segurado aos agentes nocivos será feita mediante formulário, na forma estabelecida pelo Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, emitido pela empresa ou seu preposto, com base em laudo técnico de condições ambientais do trabalho expedido por médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho nos termos da legislação trabalhista.”
9) De ressaltar-se, também, que, se o perfil fosse obrigatório somente para os empregados que se expõe a agentes nocivos em seu ambiente de trabalho e que, conseqüentemente, fazem jus à aposentadoria especial, seria a empresa quem decidiria sobre o cabimento ou não de tal benefício, em vez do INSS, pois seria a empresa quem escolheria para quem expedir o referido documento, sub-rogando-se na função do citado instituto, prática esta totalmente desprovida de qualquer amparo jurídico.
10) Dessa forma, acreditamos ser obrigatória a expedição do PPP para todos os funcionários de todas as empresas, uma vez que o Perfil não retrata apenas a presença de agentes nocivos no ambiente de trabalho, mas também o tipo de atividade desenvolvida, a ocorrência de acidentes de trabalho e outros dados administrativos, prova disso é que deve ser assinado pelo representante administrativo, pelo médico do trabalho e, ainda, pelo engenheiro de segurança do trabalho.
11) Mostra-se procedente o questionamento no que tange ao aumento de custos para as empresas, principalmente tendo em vista que a maioria das empresas terceiriza seu serviço de expedição, manutenção e armazenamento de documentos, gerando assim, enormes gastos com a criação e manutenção de um Perfil Profissiográfico para cada um dos empregados, sem gerar nenhum feedback em relação a um aumento na segurança e bem-estar dos mesmos.
12) Importante também relembrar que, a partir do dia 01/11/2003, data de sua entrada em vigor , a manutenção do PPP desatualizado ou o não fornecimento do mesmo ao empregado, por ocasião do encerramento do contrato de trabalho, levará à aplicação de multa prevista na alínea 0, inciso II, art. 283 do RPS, em torno de R$ 8 mil por PPP não apresentado.
13) Ressaltamos, ainda, que existem negociações e discussões junto ao Ministério da Previdência Social e INSS que podem provocar alterações nas condições aqui descritas e analisadas.
14) ISTO POSTO,
1)Considerando:
a)que a Lei 8.013 não é explícita e deixa margem para que a sua disposição acerca do Perfil seja regulamentado;
b)que a Instrução Normativa nº 78 estabelece a criação do Perfil, como documento comprobatório do exercício de atividade especial;
c)que a IN 84 amplia a função do PPP, acrescentando outras funções e informações ao seu bojo; e
d)que o PPP, após adiamento, entra em vigor em 01/11/2003;
2)Opinamos no sentido de que:
a) A IN nº 84 está em conformidade com a Lei 8.013, não havendo, quanto aos aspectos analisados, qualquer irregularidade formal que lhe macule a existência jurídica;
b) A partir da data de sua validade, o Perfil seja criado para todos os funcionários, sob pena de incorrer-se em multa do INSS de valor em torno de R$ 8.000,00;
c) As empresas organizem-se com o intuito de promover um movimento político junto ao Ministério da Previdência, visando a mudança da regras cogentes.
É o parecer.
Julio de Assis Bezerra Leite
OAB/CE 12.972
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A Constituição Brasileira e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (Publicado no Jornal O Povo)

A Constituição Brasileira e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional.
A busca dos constituintes brasileiros pelos Tratados Internacionais enquanto fontes inspiradoras do texto da Carta Magna de 1988 observou a realidade jurídica internacional de preocupação com os direitos humanos advinda, principalmente, da hecatombe nazista, onde se viu elevado a grau máximo o desrespeito aos direitos humanos.
Assim, a Carta de 1988 foi diretamente influenciada pela realidade pós 1945, sendo permanente a defesa dos direitos humanos; tanto, que seu Art. 5º encerra, de forma exemplificativa – e não, taxativa – os direitos e garantias fundamentais.
A Emenda Constitucional nº 45, de 08 de dezembro de 2004, acrescentou o §3º ao Art. 5º da CF/88, o qual atribuiu o status de Emenda Constitucional aos tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros. Pela mesma Emenda, acrescentou-se o §4º ao Art. 5º da CF/88, através do qual o Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão.
O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional foi assinado em 17 de julho de 1998. O Brasil ratificou o Estatuto através do Decreto nº 4.338, de 25 de setembro de 2002. A demora na ratificação deu-se pelo receio de que seu texto ferisse a soberania nacional. O grande diferencial do Tribunal Penal Internacional é instituição do princípio do juiz natural e o afastar da idéia de Tribunal específico para cada caso (Ex.:Tribunal de Nuremberg), conferindo, destarte, a força jurídica desejada pela sociedade internacional para julgamentos de crime contra a humanidade.
A competência do Estatuto de Roma no ordenamento jurídico brasileiro é complementar, ocorrendo em caso de omissão do Estado Brasileiro no que se refere aos crimes lá previstos.
Assim, de forma definitiva encontra-se inserido no ordenamento jurídico brasileiro uma Instituição permanente que funciona de forma complementar à jurisdição pátria e que, em defesa da própria sociedade, supera o nacional no que concerne ao julgamento dos crimes mais graves cometidos contra a raça humana, a exemplo de genocídio, crimes contra a humanidade, de guerra e de agressão.
A inserção dos §§4º e 5º no Art. 5º da CF/88, portanto, é bem vinda e confirma a preocupação constitucional brasileira no ser humano e seus direitos e garantias fundamentais, ao mesmo tempo em que reafirma a dignidade da pessoa humana, a prevalência dos direitos humanos, a defesa da paz e a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade enquanto fundamentos da República Federativa do Brasil.
Julio de Assis Bezerra Leite é Advogado e Professor Universitário em Fortaleza, Mestre em Direito Constitucional pela Unifor, Pós-Graduado pela FGV em Direito Empresarial e pela ESMEC/UFC em Processo.

Poder Judiciário, OAB e Sociedade (Publicado no Jornal O POVO)

Poder Judiciário, OAB e Sociedade
A Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, através da Portaria nº 212, de 18/08/2009, ordenou inspeção no Poder Judiciário do Estado do Ceará. O ato foi motivado, principalmente, pela morosidade que, crônica, já se tornou característica do Judiciário Estadual.
A ineficiência de um dos Poderes do Estado fere o princípio democrático oriundo do próprio pacto social. Nesse cenário, sofrem o jurisdicionado, o advogado e o bom juiz, aquele que se angustia mas que, sozinho, nada pode fazer diante da falta de estrutura mínima para o exercício de suas atividades.
Na divisão de responsabilidades é onde reside o problema e a solução: cada setor social vislumbra a situação de forma individualizada, enquanto que o momento sugere reflexão conjunta e ações imediatas ! Urge que advogados, juízes, promotores, associações civis, funcionários públicos e outros setores da sociedade unam-se em prol do objetivo comum, qual seja, o aprimoramento do Poder Judiciário Estadual. Soluções práticas como programas de capacitação, contratação de estagiários e de diretores de secretarias preparados e comprometidos com os ideais de justiça, presença freqüente do magistrado na Vara; e, valorização do papel do advogado, são exemplos de medidas eficazes que podem ser adotadas.
Os clamores sociais devem ser observados de forma perene, a fim de que a busca pelo aprimoramento do Poder Judiciário seja um norte constante – e não momentâneo ! - daqueles que aplicam o Direito; e, nada melhor para torná-lo mais eficaz do que o estudo contínuo da dinâmica social. Que o ato do Conselho Nacional de Justiça seja o início de uma nova Era !
Julio de Assis Bezerra Leite é Mestre em Direito pela UNIFOR, Pós-Graduado em Processo pela UFC, em Direito Empresarial pela FGV, Professor, Advogado e Membro da Comissão de Acesso à Justiça da OAB/Ce.

O Direito Fundamental do Idoso à célere prestação jurisidicional

O Direito Fundamental do Idoso à célere prestação jurisdicional.
(Publicado na Revista Latino-Americana de Estudos Constitucionais, n. 10, Ano X, Novembro de 2009, Edições Demócrito Dummar, p. 645-657)
Julio de Assis Araujo Bezerra Leite é Mestre em Direito pela UNIFOR, Pós-Graduado em Direito Empresarial pela FGV, Pós-Graduado em Processo pela UFC, Bacharel em Direito pela UFC, Professor da FGV.

1.Introdução. 2. Direitos Fundamentais: breve escorço histórico. 3. Problemática da prestação jurisdicional e sua condição de direito fundamental do idoso. 4. Conclusão.

1. Introdução.
A visão jurídica de ser humano enquanto detentor de direitos humanos e relacionada à sua dignidade obteve novos contornos a partir da segunda metade do século passado, mais precisamente, desde eventos históricos importantes para a história do Homem, com destaque para os julgamentos ocorridos após o fim da Segunda Grande Guerra Mundial, a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) e a Declaração Universal de Direitos do Homem de 1948.
A realidade jurídica advinda dos fatos históricos acima nomeados destacou-se, principalmente, por colocar no cerne da discussão a Dignidade enquanto direito fundamental do ser humano.
Na Constituição Brasileira, o Art. 5º trata dos Direitos e Garantias fundamentais. A Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, trouxe ao cenário jurídico pátrio o Diploma legal conhecido por Estatuto do Idoso.
Nesse cenário, o Idoso não foi esquecido, detendo a legislação constitucional e infraconstitucional o cabedal de normas e princípios necessários para fazer valer seus direitos.
Ocorre que, na prática, o que se verifica é a enorme dificuldade em se implementarem os direitos constitucionais e legais relacionados a dita parcela da população nacional, a qual cresce dia-a-dia.
No que se relaciona à prestação jurisdicional, o problema vem de longa data e parece insolúvel. Infelizmente, enquanto a sociedade cruza seus braços para o problema relativo à prestação jurisdicional ao idoso, esse, cada vez mais falece sem que seus direitos sejam concretizados, declarados e constituídos pelo Poder Judiciário.
Assim, cingido ao tema, aborda-se, doravante, o problema de forma direta e objetiva, identificando-se problemas e apresentando-se soluções, tudo em busca da dialética perfeita que propicie o caminhar à reflexão para fins de resolução definitiva da caótica situação do idoso frente aos Tribunais, com destaque para a morosidade.

2. Direitos fundamentais: breve escorço histórico.
Direitos fundamentais são direitos humanos positivados, inseridos no texto da Carta Máxima de uma nação. A expressão “direitos humanos” caiu em uso geral após 1945, sendo usado provavelmente pela primeira vez por HENRY THOUREAU enquanto direitos que pertencem ao indivíduo pelo simples fato de serem humanos. [1]
São eles que, interpretados em conjunto com princípios outros, a exemplo do princípio Democrático e do princípio da Dignidade da Pessoa Humana, dão a forma e o sentido a uma Constituição que tenha por escopo, sobretudo, a criação de um Estado Social.
Os direitos fundamentais são inalienáveis no sentido de não poderem ser subtraídos do texto constitucional nem do próprio âmago do ser humano. São também relativos, em conformidade com aspectos culturais; não sendo, portanto, absolutos, haja vista que sua relatividade resta evidenciada, sobretudo quando existe o conflito ou antinomia aparente entre eles, quando um prevalece.
Explica PAULO BONAVIDES[2] que os direitos fundamentais não se interpretam, mas sim, concretizam-se. Divide-os o Autor em cinco gerações, abaixo comentadas.
Os direitos da liberdade, ou seja, os direitos civis e políticos advindos da fase primeva do constitucionalismo no ocidente são os direitos fundamentais de primeira geração.
Os direitos fundamentais de segunda geração são “os direitos sociais, culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou de coletividades, introduzidos no constitucionalismo das distintas formas de Estado social, depois que germinaram por obra da ideologia e da reflexão antiliberal do século XX.”[3] Os de terceira geração referem-se ao direito do indivíduo ao desenvolvimento, referindo-se tanto a Estado como indivíduos, nestes últimos relacionando-se com o trabalho, saúde e alimentação adequada; e, os de quarta geração são aqueles conectados à democracia, pluralismo e informação.
Os direitos fundamentais de quinta geração unem-se com o inafastável direito à paz. Sobre a quinta geração de direitos, afirma PAULO BONAVIDES[4]:
“Direito à paz, sim. Mas paz em sua dimensão perpétua, à sombra do modelo de Kant. Paz em seu caráter universal, em sua feição agregativa de solidariedade, em seu plano harmonizador de todas as etnias, de todas as culturas, de todos os sistemas, de todas as crenças que a fé e a dignidade do homem propugnam, reivindicam, concretizam e legitimam.”
Nesse cenário, as gerações de direitos não devem ser analisadas de forma isolada, mas sim, enquanto fases evolutivas do Direito diante da sociedade, do próprio Homem. A depender do histórico de dada nação, inserir-se-á esta em uma, nalgumas ou todas as gerações de direitos fundamentais que, registra-se, interpretam-se também conjuntamente. Mas, nem sempre foi assim.
Até a primeira metade do Século XX, as discussões acerca dos direitos fundamentais tinham por centro basicamente único o problema da escravidão, da exploração do homem pelo homem, resquício quiçá da onda escravagista que varreu o mundo e as colônias européias principalmente até fins do século XIX.
Após a Revolução Industrial e a fase européia conhecida por belle époque, o mundo deparou-se com dois acontecimentos que mudaram para sempre a história das civilizações: a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ceifou milhões de vidas, sendo também conhecida por guerra de trincheiras, vez que a evolução tecnológica de tal período ainda era bastante inferior à da Segunda Grande Guerra Mundial.
Finda a Primeira Guerra Mundial e assinado o Tratado de Versalhes, a verdade é que seus termos levaram o mundo a uma Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com proporções gigantescas se comparada com o período bélico anterior.
As nações européias e americanas viram com temor a ascensão do Partido Nazista ao Poder, na Alemanha,que, por sua vez ao deflagrar o segundo conflito Mundial, pouco a pouco foi invadindo fronteiras e ocupando países como Polônia, Holanda, França, dentre outros. Além das exigências do Tratado de Versalhes, propiciou a ascensão do nazismo a crise mundial originada com o crash ou quebra da bolsa de valores de 1929, quando Hitler e seus partidários encontraram campo fértil para a proliferação de suas ideologias.
O fim da Segunda Grande Guerra levou a ciência jurídica a mudar o foco dos direitos humanos que, antes circunscritos à escravidão, no pós-guerra passou a focar a dignidade, que passou a ser a palavra mundial de ordem no direito constitucional.
Para ANA PAULA BARBOSA[5], a eleição do princípio da dignidade da pessoa enquanto fundamento do próprio direito constitucional pós-guerra afasta a adoção de outros critérios característicos dos indivíduos, a exemplo de cor de pele e grau de inteligência para conferir-lhes direitos.
O princípio da dignidade da pessoa humana, ao prever que todos devem ser tratados de forma igualitária de acordo com suas idéias e manifestações, ao afastar ou tentar afastar a recorrência de abusividades no campo dos direitos humanos, representou imensurável avanço para as sociedades.
A inserção do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana enquanto fundamento-mor do ordenamento jurídico das nações no pós-guerra, pode-se afirmar, teve por passo inicial e político a realização dos Tribunais de Guerra de Nuremberg e Tóquio; a Carta de São Francisco de 1945, a qual criou a ONU (Organização das Nações Unidas) e a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948[6]. A partir daí proliferaram-se Tratados internacionais que geralmente são inseridos nos textos das constituições de países democráticos, como ocorre, por exemplo, no art. 5º da Carta Política Brasileira.

3. Problemática da prestação jurisdicional e sua condição de direito fundamental do idoso.
A ausência de celeridade judicial fere o próprio princípio constitucional democrático e o pacto ou contrato social. Com a morosidade, a sociedade desestabiliza-se, ficando à deriva frente ao Estado Democrático de Direito.
A Constituição Federal de 1988, em seu art. 230, assevera que "a família, a sociedade e o estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. "
Note-se que o Legislador constitucional reforça, no art. 230 da Carta Política em vigor, o disposto no Art.5º da mesma Carta; isso, ao ratificar o direito fundamental do idoso à vida e à dignidade.
A Lei 10.741/2003 - Estatuto do Idoso -, de seu turno, não obstante constitua um avanço social, encontra-se por demais distante do ideal de justiça coerente com a realidade da população idosa brasileira; isso, porque sua aplicação prática encontra enormes dificuldades.
Em seu Art. 2º, o Estatuto do Idoso lança as bases sobre a qual devem ser observados os direitos fundamentais do idoso:
Art. 2º O idoso goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.
O Estatuto do Idoso, portanto, confere ao Idoso uma situação especial, uma vulnerabilidade especial, espécie de hipervulnerabilidade que lhe dá preferência no trâmite prioritário, em decorrência de sua própria condição; medida, no mínimo, respeitosa.
Tanto é assim que o Estatuto do Idoso veio a diminuir a idade para o benefício de trâmite processual prioritário; isso, ao considerar idoso o indivíduo com 60 (sessenta) anos ou mais, revogando, dessa forma e tacitamente, a idade mínima de 65 (sessenta e cinco anos) para o trâmite prioritário, como previsto no Estatuto Processual Civil pátrio antes da promulgação da Lei 10.741/2003. Importante referenciar que a Lei nº 12.008, de 29.07.2009, DOU 30.07.2009, afastou as dúvidas com relação à revogação tácita, pelo Estatuto do Idoso, dos Arts. 1211-A, 1211-B e 1211-C do Código de Processo Civil ao prever idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos para tramitação prioritária de procedimentos judiciais[7].
Assim é que em conformidade com o disposto no Art .71[8] do Estatuto do Idoso, assegura-se prioridade àquele com idade igual ou maior de 60 (sessenta anos) no que se refere à tramitação de processos e procedimentos, bem como, na execução dos atos e diligências judiciais.
Deixa antever o parágrafo primeiro do Art. 71 do Estatuto do Idoso, que a prioridade deve ser requerida à autoridade judiciária, mediante prova da idade do requerente. O destaque da prioridade deve-se dar de forma visível nos autos do processo. Na prática, utiliza-se a capa dos autos para tal referência.
Considerando-se a importância de tal regra no ordenamento pátrio, bem como, os princípios que a fundamentaram, o correto seria que o legislador não houvesse deixado dúvidas quanto à aplicação automática ou não de referida benesse legal, ou seja, melhor seria que o legislador expressasse, no texto da lei, que o trâmite prioritário será observado, ainda que não requerido pela parte.
De acordo com o parágrafo segundo do Art. 71 do Estatuto do Idoso, a prioridade não findará com a morte do beneficiado, estendendo-se em favor do cônjuge sobrevivente, companheiro ou companheira, com união estável, desde que maior de 60 (sessenta anos). Nesse dispositivo, muito embora haja referência a “maior de 60 anos”, para fins hermenêuticos deve-se considerar a pessoa com idade igual ou maior a 60 (sessenta) anos, da forma como esclarecido no caput do Art. 71 do Estatuto do Idoso.
A prioridade também se aplica aos processos e procedimentos junto à Administração Pública, empresas prestadoras de serviços públicos e instituições financeiras, bem como, ao atendimento preferencial junto à Defensoria Pública da União, dos Estados e do Distrito Federal em relação aos Serviços da Assistência Judiciária, conforme previsão expressa no parágrafo terceiro do Art. 71 do Estatuto do Idoso. De seu turno, o parágrafo quarto de referido artigo prevê que para o atendimento prioritário será garantido ao idoso acesso fácil a caixas e assentos, os quais devem estar visivelmente identificados com caracteres legíveis e visíveis.
Noutras palavras, constata-se a opção legislativa pela eleição do princípio da celeridade à categoria especial de pessoas, tudo com o intuito de concretizar os direitos fundamentais, com destaque para a dignidade, para referida parcela da população. Desiguala-se para igualar, o que também desemboca no respeito ao princípio da igualdade, tão bem definida por RUI BARBOSA[9]. O princípio da igualdade, por sua vez, relaciona-se com a implementação dos direitos sociais constitucionalmente previstos. No entender de INGO SARLET[10]:
(...) os direitos fundamentais sociais constituem exigência inarredável do exercício efetivo das liberdades e garantia da igualdade de chances (oportunidades), inerentes à noção de uma democracia e um Estado de Direito de conteúdo não meramente formal, mas, sim, guiado pelo valor da justiça material
A morosidade processual, nesse cenário, constitui-se em verdadeira discussão no ordenamento jurídico pátrio. A promulgação da Constituição Federal de 1988 levou ao aumento significativo de demandas judiciais, tudo fruto da então Era democrática que a Carta veio a fundar no plano jurídico, após anos de regime de exceção.
O aumento significativo das demandas judiciais, aliado à falta de estrutura do Poder Judiciário, sobretudo, no Estadual, implementou a crise que no momento assusta a sociedade brasileira.
Quanto ao idoso, os avanços sociais aumentaram a média de vida na terceira idade. Hoje, é comum depararmo-nos com indivíduos idosos com mais de 90 anos que participam de forma efetiva da vida social; e que, em conseqüência disso, pelos mais variados motivos, cada vez mais procuram a tutela do Poder Judiciário em busca de seus direitos subjetivos. Estatísticas demonstram que no ano de 2025 o Brasil possuirá mais de 30 milhões de idosos.
É uma realidade da qual não se pode fugir. O idoso brasileiro, hoje, produz, sustenta a família, namora, constitui união estável, contrai matrimônio, diverte-se, separa-se, viaja, assume obrigações perante terceiros; enfim, participa ativamente da vida em sociedade.
A crise do Poder Judiciário, como não poderia deixar de ser, atinge o idoso; e, o conseqüente descrédito atribuído ao Judiciário por parte da população ocasiona problemas os mais variados. O surgimento de milícias particulares enquanto verdadeiro exercício de vingança privada frente à ausência estatal, a existência de indivíduos presos com excesso de prazos, a demora excessiva na prática de atos judiciais, dentre outros, são somente uma pífia demonstração do caos social instalado.
O princípio democrático encontra-se malferido ! As gerações de direitos encontram-se abaladas, inclusive, no que se refere à paz social, aspecto ligado à quinta geração de direitos fundamentais que, nas palavras de Paulo Bonavides[11], ela, a paz, deve “ser levantada ao máximo de juridicidade, em nome da conservação e do primado de valores impostos à ordem normativa pela dignidade da espécie humana”.
No âmbito do direito do idoso, o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça editaram Resoluções[12] regulamentando o tema, contudo, a verdade é que uma situação de conforto encontra-se longe da realidade atual.
Na prática, considerável parcela de litigantes idosos morre sem ver o julgamento de seus processos, que tramitam em todas as esferas do Poder Judiciário desta nação. Tal situação angustia, além do idoso, sua família e, porque não dizer, a sociedade como um todo.
A prioridade no trâmite, de forma objetiva, visa conferir maior celeridade à prestação jurisdicional. É dever do Estado, através, dentre outros, da consagração do princípio da eficiência insculpido no Art. 37 da Carta Cidadã de 1988, implementar de forma mais efetiva a política nacional do idoso no que se refere à prestação jurisdicional.
Doutra face, o direito ao trâmite processual prioritário é direito fundamental do idoso, conforme observado na própria exegese do Art. 2º da Lei do Idoso, o qual remete o aplicador da Lei aos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal Brasileira.
Nas palavras de MARCOS RAMAYANA[13], “o princípio da celeridade é consagrado na proteção dos interesses dos idosos, sendo, portanto, um consectário da supremacia constitucional, na medida em que o idoso é protegido por norma de direito fundamental.”
A celeridade processual ao idoso, dessarte, constitui-se em verdadeiro direito fundamental que deve ser concretizado por todos aqueles que lidam direta ou indiretamente com o tema. Noutras palavras, a objetividade do trâmite prioritário ao indivíduo com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos deve constituir-se em instrumento de realização da justiça no Estado social. Somente assim, os primados dos princípios constitucionais, com destaque para o princípio da dignidade da pessoa humana, serão observados de forma salutar e escorreita.
A observância de tal direito fundamental - o de um processo célere – por si só, entretanto, não é suficiente; sendo, outrossim, importante a adoção de política judiciária que combata as mazelas processuais que atingem aqueles com idade inferior a 60 (sessenta) anos. O ataque ao problema através daqueles que não se adéquam à realidade jurídica do idoso, de forma direta propiciará melhores condições processuais ao idoso, visto que a morosidade será combatida de forma uniforme.
Ademais disso, urge que os três entes estatais, através de seus órgãos de administração direta e indireta, observem à dinâmica da sociedade com o intuito de aprimoramento constante do direito fundamental do idoso à célere prestação jurisidicional.
Por fim, somente através de um pacto social, assim entendido como a conjunção de forças das três esferas de poderes do Estado com a sociedade, será possível o aprimoramento de atos que visem a concretização permanente do direito fundamental do idoso a uma célere prestação jurisdicional.

4. Conclusão.
O idoso é sujeito de direitos e deveres na ordem constitucional brasileira. Enquanto sujeito de direitos, a ele se aplicam toda a gama de direitos fundamentais previstos na Carta Política de 1988, com destaque para aqueles previstos no Art. 5º da Carta Política.
Não obstante os direitos fundamentais do idoso já se encontrarem previstos na Constituição Federal quis o Legislador diferenciá-lo de forma categórica, desempenhando tal mister através da Lei nº 10.741/03, comumente conhecida por Estatuto do Idoso,o qual proclamou a adoção de práticas sociais e jurídicas específicas àqueles que contam com 60 (sessenta) anos de idade ou mais. Por tal motivo, pode-se afirmar que o Estatuto do Idoso constitui-se em um microssistema legal, com regras próprias, situação semelhante à ocupada em nosso ordenamento jurídico pelo Código de Defesa do Consumidor.
O critério utilizado pelo legislador pátrio para definição de idoso é a idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. O critério da idade supre eventual ocorrência de problemáticas outras que poderiam gerar problemas na aplicação prática da legislação específica, a exemplo de estado de saúde, capacidade física e intelectual, dependência econômica, etc.
O idoso, hoje, devido principalmente aos avanços nos campos da medicina e melhoria das condições de vida nas grandes cidades, possui relevante papel na sociedade, seja no mercado de trabalho, no sustento da família, no consumo de bens e serviços ou, ainda, nas assunção de obrigações contratuais as mais diversas. Por tais principais motivos, dentre outros, crescem no Brasil as demandas envolvendo pessoa da terceira idade.
A nova realidade social imposta pelo idoso e a morosidade judiciária característica no Brasil resvalou na necessidade jurídica de surgimento de um diploma específico para fazer valer a aplicação prática do princípio constitucional da igualdade, o que se deu através da Lei nº 10741/03.
Do ponto de vista processual, o Estatuto do Idoso, no afã de resolver ou minorar a questão da morosidade judiciária e em respeito àqueles que diante da avançada idade, por um ou outro motivo não mais dispõem do animus de outrora para litigar, ordenou o trâmite processual prioritário àqueles com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
A medida ora sob comento constitui um avanço na implementação e, porque não dizer, concretização dos direitos fundamentais dos idosos. Por óbvio, contudo, não é suficiente para resolver a situação, vez que a problemática ligada à morosidade da Justiça encontra nascedouro em inúmeros aspectos relacionados à estrutura do Poder Judiciário (falta de qualificação de servidores, escasso número de juízes, ineficiência no atendimento, falta de iniciativa, etc.) e à sociedade organizada que, tímida, ainda não resolveu abraçar o problema de forma objetiva. Tenha-se por exemplo o disposto no Art. 70 do Estatuto do Idoso que prevê a criação de varas especializadas e exclusivas do idoso, medida, infelizmente, ainda não aplicada a nível nacional.
Não se pode olvidar, entretanto, que o direito à célere prestação jurisdicional encontra conexão direta com os direitos fundamentais dos idosos e, por tal relevante motivo, deve influenciar o operador jurídico no desempenho de seus misteres diários, tudo sob pena de grave atentado à ordem constitucional vigente.

Notas:
[1] “The expression ‘ human rights’ came into general use after 1945, although probably first used by Henry Thoreau in the previous century, and at their simplest they can be defined as rights belonging to individuals by virtue of the fact that they are human” (Peter HALSTEAD, Human Rights, p.20)
[2] Paulo BONAVIDES, Curso de Direito Constitucional, pp. 563 a 607.
[3] Op.cit., p.564.
[4] Op.cit., p.591
[5] Ana Paula BARBOSA e outros, Legitimação dos Direitos Humanos, p. 160
[6] Para Norberto BOBBIO, A Era dos Direitos, p.43, com a Declaração de 1948, o foco passou a ser as garantias dos direitos fundamentais e não mais a sua fundamentação.
[7] Art. 1211-A. Os procedimentos judiciais em que figure como parte ou interessado pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, ou portadora de doença grave, terão prioridade de tramitação em todas as instâncias.
Parágrafo único. (VETADO)
Art. 1211-B. A pessoa interessada na obtenção do benefício, juntando prova de sua condição, deverá requerê-lo à autoridade judiciária competente para decidir o feito, que determinará ao cartório do juízo as providências a serem cumpridas.
§ 1º Deferida a prioridade, os autos receberão identificação própria que evidencie o regime de tramitação prioritária.
§ 2º (VETADO)
§ 3º (VETADO) (NR) (Redação dada ao artigo pela Lei nº 12.008, de 29.07.2009, DOU 30.07.2009)
Art. 1211-C. Concedida a prioridade, essa não cessará com a morte do beneficiado, estendendo-se em favor do cônjuge supérstite, companheiro ou companheira, em união estável. (NR) (Redação dada ao artigo pela Lei nº 12.008, de 29.07.2009, DOU 30.07.2009.
[8] Art. 71. na tramitação dos processos e procedimentos e na execução dos atos e diligências judiciais em que figure como parte ou interveniente pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, em qualquer instância.
§ 1º O interessado na obtenção da prioridade a que alude este artigo, fazendo prova de sua idade, requererá o benefício à autoridade judiciária competente para decidir o feito, que determinará as providências a serem cumpridas, anotando-se essa circunstância em local visível nos autos do processo.
§ 2º A prioridade não cessará com a morte do beneficiado, estendendo-se em favor do cônjuge supérstite, companheiro ou companheira, com união estável, maior de 60 (sessenta) anos.
§ 3º A prioridade se estende aos processos e procedimentos na Administração Pública, empresas prestadoras de serviços públicos e instituições financeiras, ao atendimento preferencial junto à Defensoria Publica da União, dos Estados e do Distrito Federal em relação aos Serviços de Assistência Judiciária.
§ 4º Para o atendimento prioritário será garantido ao idoso o fácil acesso aos assentos e caixas, identificados com a destinação a idosos em local visível e caracteres legíveis.
[9] Rui BABRBOSA, Oração aos Moços, p.17, afirma:
“A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguaes, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada á desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguaes, ou a desiguaes com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real.”
[10] Ingo SARLET, A Eficácia dos Direitos Fundamentais, p.71
[11] Op.cit., p.590.
[12] Resolução STF nº 277, de 11.12.2003, DJU 16.12.2003, que dispõe sobre a concessão de prioridade na tramitação de procedimentos judiciais em que figure como parte ou interveniente pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta anos); e, Resolução STJ nº 11, de 09.12.2003, DJU 11.12.2003, que dispõe sobre a concessão de prioridade na tramitação dos processos judiciais em que figure como parte ou interveniente pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
[13] Marcos RAMAYANA, Estatuto do Idoso comentado, p. 81.

Referências:

ALEXY, Robert, Teoria dos Direitos Fundamentais. 5ª Ed., SP: Malheiros, 2008.
BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. SP: Martin Claret, 2003.
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. RJ: Elsevier, 2004, 5ª reimpressão.
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional, 22ª Ed., SP: Malheiros, 2008.
HALSTEAD, Peter. Human Rights. Series Editor Jacqueline Martin & Chris Turner: Londres, 2008.
MELO, Orfelina Vieira. O Idoso Cidadão. 2 ed., Rio de Janeiro: AM edições, 1996.
NUNES, Rizzato. O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. SP: Saraiva, 2002.
ROSEMAN, Mark. Os nazistas e a solução final: a verdadeira história da Conferência de Wannsee. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.
ROUSSEAU, Jean-jacques. O Contrato Social e outros escritos. SP: Cultrix, 2003.
SARLET, Ingo. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 9ª Ed, SP: Livraria do Advogado Editora, 2007
TORRES, Ricardo Lobo (org); BARBOSA, Ana Paula Costa et al. Legitimação dos Direitos Humanos. 2 ed, Rio de Janeiro: Renovar, 2007.